Organicidades: Travessias por Franco da Rocha. 

O Centro Cultural Newton Gomes de Sá recebeu, no dia 14 de setembro, a mostra Organicidades – Travessias por Franco da Rocha,  que reuniu nove artistas de diferentes linguagens e contemplou uma série de atividades de formação de público. Realizada pela Prefeitura Municipal de Franco da Rocha e pela Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer por meio do Edital ProAC 48/2018 – ProAC Municípios, a mostra Organicidades – Travessias por Franco da Rocha reuniu os artistas Cris Proença, Douglas Scotti, Edmar Almeida, Isabel Bei, Marcelo Bressanin e Marilia Vasconcellos, organizadores do projeto e também Brian Chalega da Silva, Pedro Quintanilha e Silvia Sapucaia, selecionados por meio de convocatória aberta aos artistas de Franco da Rocha. 

Resultado de uma residência artística de dez dias realizada na Casa de Cultura Marielle Franco, as obras inéditas apresentaram interpretações poéticas sobre a vida cotidiana em Franco da Rocha, a partir das materialidades, das simbologias e da história da cidade. Na abertura da mostra, que aconteceu no dia 14 de setembro às 15 horas, os artistas realizaram um bate-papo com o público, comentando o processo de residência e também os trabalhos apresentados. Além da exposição, o projeto também levou ao público da cidade cinco oficinas temáticas em diferentes linguagens artísticas e apresentou intervenções sonoras diárias na Rádio Local Alternativa de Franco da Rocha.

SERVIÇOS
Exposição “Organicidades – Travessias por Franco da Rocha”
Artistas: Cris Proença, Douglas Scotti, Edmar Almeida, Isabel Bei, Marcelo Bressanin, Marilia Vasconcellos, Brian Chalega da Silva, Pedro Quintanilha e Silvia Sapucaia
Abertura e encontro com os artistas: 14.09.2019, a partir das 15h.
Visitação: de 14.09 a 14.10.2019
Local: Centro Cultural Newton Gomes de Sá
Endereço: Av. Sete de Setembro, s/n, Centro, Franco da Rocha
Horário: de segunda à sexta, das 9 às 20h, sábado, das 9 às 17h, entrada gratuita.

Marcelo Bressanin

CICLOS
Instalação sonora site specific. Escultura sonorizada, alto-falantes, players e sistema de amplificação de áudio

Criada ao longo da residência artística do projeto Organicidades, a instalação sonora site specific CICLOS tem como origem as derivas do artista pela cidade de Franco da Rocha e a observação das características locais, como a onipresença de uma paisagem sonora fortemente marcada por ruídos urbanos convencionais (trânsito, anúncios sonoros, transeuntes, entre outras tantas), pela ausência evidente de elementos naturais (ou da paisagem hi-fi, como sons de árvores, pássaros, etc), pela difusão de músicas e informes nos 85 alto-falantes urbanos da Rádio Local Alternativa e pela forte presença da circulação dos trens.
A instalação CICLOS, que consiste em um sistema sonoro formado por quatro alto-falantes e por uma escultura sonora, propõe ao público duas peças sonoras, a primeira elaborada por meio da manipulação de uma amostra sonora da partida de um dos trens da CPTM e a segunda dedicada aos sons de pássaros captados no Parque Estadual do Juquery. A alternância entre essas duas peças propõe aos visitantes uma reflexão sobre a cisão entre os espaços urbanizados da cidade e as áreas naturais que a circundam e também sobre o trânsito constante da população para atividades cotidianas, predominantemente em São Paulo. A escultura sonora que integra a instalação, e mimetiza os alto-falantes de rua da Rádio Local Alternativa, remete a uma segunda obra produzida durante a residência, o álbum 4 ciclos, que será levado ao ar no sistema de som da rádio na cidade ao longo da exposição, além de disponibilizado para download no site do projeto Organicidades. O álbum, com quatro faixas – “Ciclo 1: Partidas”, “Ciclo 2: Notação de pássaros para piano”, “Ciclo 3: Partículas líquidas” e “Ciclo 4: Trânsitos”, as duas primeiras apresentadas na instalação – foi construído por meio de diversos experimentos técnicos e composicionais a partir dos registros sonoros captados pelo artista ao longo de suas pesquisas em Franco da Rocha.

Escute abaixo as composições do álbum Ciclos de Marcelo Bressanin, ou click no link para download .

Isabel Bei

Estação Franco da Rocha, Rio Juquery
Desenhos em ecoline sobre papel, submersos no Rio Juquery . 62,cm x 184cm

Estação Franco da Rocha, Rio Juquery, é composto por um conjunto de dez desenhos criados dentro do trem da linha Rubi da CPTM, durante os trajetos entre as estações Franco da Rocha – Luz e Luz – Franco da Rocha. Cada desenho foi mergulhado no Rio Juquery, cujo acesso se deu pela ponte que liga o Complexo Hospitalar do Juquery ao Centro de Franco da Rocha. Os desenhos fazem referência a locais e edifícios de Franco da Rocha.

Marilia Vasconcellos

Relíquia
Mini esculturas de lugares emblemáticos que não existem mais, criadas à partir de fotografias antigas de Franco da Rocha.
Argila, led, impressão fotográfica em papel de seda, caixa de mdf.

Linharte, antiga Parada do Feijão e Fazenda Velha – 9º Colônia do Juquery, relíquias perdidas para o tempo, mas, que sobrevivem na memória de uma cidade em constante transformação. A obra revisita lugares emblemáticos de Franco da Rocha, resgatando a sua materialidade físico-poética ao somar a argila à terra de suas antigas localidades. A obra é um convite as recordações e também uma homenagem a correnteza do tempo, as vidas que por ali passaram e as que ainda guardam a presença pulsante tanto em suas histórias, como na de seus antepassados.

Botânica
Botânica – Plantas inventadas à partir da coleta na cidade de Franco da Rocha. Impressão Fotográfica
Inventário Botânico – Plantas coletadas na cidade de Franco da Rocha. Flores e folhas desidratadas, caixa de mdf, mapa e vidro.
Tibouchinha tabebuia – Escultura de planta inventada à partir de coleta na cidade de Franco da Rocha. Folhas, flores, cúpula de vidro e madeira
 
O ensaio Botânica teve origem com meus estudos de linhas espirituais indianas, onde conheci Boser, um botânico indiano que dedicou a vida ao estudo das plantas. Suas pesquisas se baseavam em experimentos que fortaleciam a ideia de que as plantas possuíam reações emocionais diversas. Minha percepção de que as plantas vivas não poderiam ser simplesmente expropriadas de sua natureza me fez elaborar manufaturas imagéticas usando plantas caídas, e posteriormente, agreguei a coleta de pequenas amostras pontuais de plantas vivas, desenvolvendo diversas formas de preservação e secagem.
 
Botânica, esse trabalho em processo, se constitui de espécies fictícias montadas como um quebra cabeças no qual as flores e as folhas não fazem originalmente parte de uma mesma planta. Em paralelo e de forma igualmente fictícia, crio a nomenclatura  baseada nas técnicas de denominação e catalogação clássica da ciência botânica. Parte das plantas fotografadas são resinadas e reconstruídas em forma de mini esculturas.
 
Em Franco da Rocha, as obras foram construídas de forma site specific durante a residência artística Organicidades. Longas caminhadas e coletas monitoradas por gps fizeram parte do processo de criação. Gerando um panorama da botânica da cidade, e de como ela se manifesta pelo território urbano. Para a composição do Botânica foram criadas 5 espécies inventadas, uma escultura botânica e um inventário botânico, dispondo em uma caixa pequenas amostras das espécies coletadas juntamente com seu mapeamento

Kintsugi
Papel carbono, tinta dourada e led.

A partir da sobreposição de mapas antigos e novos de Franco da Rocha, a tinta dourada é aplicada onde as transformações do tempo divergem, gerando rachaduras. Seguindo a antiga técnica japonesa do Kintsugi que trata da aceitação da mudança e destino como aspectos da vida humana, destacamos as rachaduras e reparos como um evento na vida do objeto. Dessa forma, ele se torna mais valioso após seu rompimento, ganha personalidade e valor da experiência, da transformação e do tempo.

Edmar Almeida

Série Riscos 1987: Estratigrafias da lama.
Taioba do Juquery. Caixa de madeira, contendo pólvora queimada sobre terras e pigmentos naturais. Tamanho 57×57 cm..
Viaduto com gafanhoto. Caixa de madeira, contendo pólvora queimada sobre terras e pigmentos naturais. Tamanho 57×57 cm.
Caminhos de ouro. Instalação com lama e esculturas. Tamanho 1.10×57 cm.

Há 32 anos uma grande enchente em oito dias consecutivos por uma grande chuva de janeiro atingiu cidade de Franco da Rocha. Toda região central foi atingida, chegando em alguns pontos a uma margem de até três metros de altura de água e lama. Todo comércio, fórum, delegacia, câmara, prefeitura, estação férrea e escolas foram afetadas, percorrer a região era somente acessível de barco. A represa Paiva Castro que recebe água do Complexo Cantareira, não suportou e a Sabesp teve que abrir suas comportas, desaguando 70 mil litros de água por segundos pelo Rio Juquery que corta a cidade de Franco da Rocha, deixando o centro e entornos alagados. A água demorou semanas para baixar e houve muitas vítimas. Através deste acontecimento investigo os “riscos”, que fatos emergentes desse triste episódio que fizeram recentemente presentes. Meu corpo é deslocado em busca da matéria viva destes episódios, a lama, a terra. Produzi peças em auto relevo a partir de lamas, toda textura utilizada deste processo veio de rochas, folhagens, raízes, pegadas de pessoas que encontrei pelo caminho. Preocupado com a frequência queimadas que ocorrem no Parque Estadual do Juquery, que em sua maioria causada pelas mãos humanas, à pólvora é convidada no processo a cruzar esses sulcos estratigrafados, abrindo pequenas explosões gráficas, elos, rastros e riscos que as mesmas deixaram.

Cris Proença

Cartões Postais da cidade de Franco da Rocha
Papel Canson 300g A5, lápis grafit e Aquarela

Caminhar pela cidade de Franco da Rocha e observar com atenção tudo o que pode ser uma referência de imagem para um cartão postal, foi a primeira experiência. Considerando a ideia de algo que seja simbólico, representativo e que passe por uma poesia imagética para compor a arte de cada um. O desenho de observação destes espaços (alguns realizados pessoalmente, outros por fotografia do local escolhido), foi a segunda parte deste processo. E por fim unidos na Casa de Cultura Marielle Franco artistas organizadores e residentes deram cores em seus cartões postais com tinta aquarela. Formando então este conjunto Cartões Postais da cidade de Franco da Rocha.

Pedro Quintanilha

Franco da Rocha,  2019

Brian Chalega da Silva

Série “A longa caminhada

A sequência principal de desenhos é do meu caminho até o centro, nessas ruas podem não haver construções famosas mas elas me trazem muitas memórias de pequenos momentos. Além das coisas simples e interessantes de se ver em cada rua, o foco está nas sensações e lembranças que vêm a cabeça quando passo por ali. Muita coisa só notei quando fui desenhar e comecei a olhar com atenção, isso é algo que gostaria de propor em seu próprio trajeto: lembrar das sensações de quando passa por ali mas ao mesmo tempo tentar vê-lo como se fosse a primeira vez. Não resisti a incluir também desenhos de outros percursos, eles seguem a mesma linha dos demais e revelam parte do processo todo.

Silvia Sapucaia

Estigma
Técnica mista. Tecido e plástico. Dimensões 1,80X 80 cm 

Estigma e o surgimento de mitos, durante vários anos a cidade foi berço do maior hospital de pesquisas no campo da psiquiatria, a chamada “Cura da Loucura “, onde práticas desumanas e terapias eram feitas em pacientes. Com a luta antimanicomial, os prédios foram desocupados dando espaço para a vinda de presídios e a Febem. Em 1987, Franco da Rocha sofre com uma das maiores enchentes da história da cidade, e com este episódio surge um mito: o bebê monstro e a maldição lançada no seu nascimento. Estigma é a mistura de vários transtornos sociais vividos pela população Francorrochense, regado com uma pitada de poesia inspiradas pelo Livro das Coisas outras do Poeta local Andre Arruda

Douglas Scotti

O  JUCA VIVE
Técnica: acrílica sobre tela. Dimensões: 2.00 x 2.00

O painel ” O JUCA VIVE “,  foi criado para representar a luta de todos agentes culturais do município,  que sempre sonharam em transformar este local, em um espaço de ações culturais. Ele é  uma mistura quixotesca , com elementos do maracatu . O JUCA VIVE , representa a revitalização  do hospital Juquery.

Abertura da Exposição Organicidades: Travessias por Franco da Rocha. Imagens cedidas pela Prefeitura de Franco da Rocha.